Memórias de Veríssimo: um encontro inesquecível em sua casa

Relembro um encontro com Luis Fernando Verissimo em 2018, na casa onde faleceu aos 88 anos. Essas memórias de Veríssimo mostram humor, liberdade, amor por Lúcia e reflexões sobre a finitude da vida.
memórias de Veríssimo Luis Fernando Verissimo em seu estúdio em Porto Alegre, ao lado da autora do artigo, durante entrevista realizada em 2018.
Luis Fernando Verissimo em seu estúdio, em Porto Alegre, durante entrevista de 2018. Ao lado, a autora deste artigo, que relembra neste texto as memórias de Veríssimo. (Imagem: Boa Notícia Brasil)

A morte de Luis Fernando Verissimo, em 30/08, aos 88 anos, em Porto Alegre, encerra um dos capítulos mais luminosos da literatura brasileira. Em 2018, estive em sua casa, sentei em sua sala, ouvi suas histórias e registrei em vídeo o que hoje se transformam em preciosas memórias de Veríssimo.

Entrar na residência de Verissimo foi como entrar em um universo próprio. O jardim da rua Felipe de Oliveira, as paredes repletas de livros e cartuns, o estúdio impregnado de humor e jazz. Ali, ele me recebeu com simplicidade, sempre acompanhado de Lúcia, sua companheira de vida. O riso leve e a ironia fina faziam parte do ambiente tanto quanto os móveis e as lembranças familiares.

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A liberdade de expressão

Em nossa conversa, ele falou sobre liberdade: “Comecei a escrever em 1969, em uma época brava de censura. Hoje eu posso escrever sobre o que eu quiser, dentro dos limites do bom senso, mas assunto proibido não tem.” Essa frase, ouvida diretamente dele, ainda ressoa. Nas suas palavras, havia a convicção de que a crônica era, sobretudo, uma trincheira democrática.

Falou também de seus personagens. A Família Brasil, que ele via como um retrato da classe média perplexa; e a Velhinha de Taubaté, que acreditava em tudo que o governo dizia. Entre risadas, comentou que “quando ela morreu, o Brasil desandou”. São lembranças que me fizeram entender como o humor, em Verissimo, sempre foi política e poesia ao mesmo tempo.

Memórias de Veríssimo sobre amor e finitude

O momento mais comovente veio quando falou sobre a finitude: “Meu plano era trabalhar até não poder mais e esperar a morte. Eu gostaria de ser imortal… não morrer mesmo.” Era uma confissão sem pose, de alguém que ria até da própria mortalidade.

Também não deixou de celebrar sua parceria com Lúcia: “Talvez por sermos tão diferentes deu certo. Estamos juntos há 54 anos. É demais, mas foi muito bom.” Nessas memórias de Veríssimo, amor e humor se entrelaçam como marcas de sua vida e obra.

Hoje, ao lembrar desse encontro, sinto que essas memórias não pertencem apenas a mim, mas a todos que aprenderam a rir e pensar com seus textos. Convivi algumas horas com o homem por trás do cronista — e ele foi tão humano, lúcido e generoso quanto seus livros.

Foto de Alessandra Martini

Alessandra Martini

Alessandra Martini é jornalista formada pela PUCRS, com MBA em Sustentabilidade. Atua no Boa Notícia Brasil na produção de conteúdos informativos sobre cidadania, educação, ciência e iniciativas de impacto positivo, pautada por ética e checagem de informações.

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